Preciso de um convite em outra língua,
talvez alguma infecção,
qualquer coisa que sorria para minhas veias.
Queria falar com os pássaros da árvore fincada em meu ouvido,
Queria ecrever ao som de mel e limão,
congelar a febre elétrica que corre na ponta de meus dedos,
e esse fogo na garganta.
Vivo num córrego insano,
impaciente e agudo que assombra minhas vias,
aguço meus fios,
estremeço,
estou farto de imunidades.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Walt Disney X Wila Pinto

Quarta feira, limbo da semana, meio caminho da vida. Acordo 7 hs e 30 min. Meu destino é um centro de atendimento para crianças no meio da vila Pinto. Sinto preguiça, eu sei por onde devo passar até chegar lá. É lixo, ruelas sem nome, crianças sem pais, passos entre o esgoto e o esquecimento. Chego no horário, mas elas iriam assistir à um filme da Walt Disney chamado "encantada". O filme inicia como desenho animado e trata de uma princesa que está prestes a se casar, quando uma bruxa a joga numa cachoeira com um fundo abismal, um lugar, segundo as palavras da bruxa, onde não existe "feliz para sempre". Ela é lançada à realidade. O que era uma princesa desenhada vira uma mulher de carne e osso (claro que a beleza se mantém). Ela sai de um bueiro e descobre um lugar barulhento, lotado, confuso, onde as pessoas não sorriem umas para as outras ou ficam cantando enquanto "passeiam" na rua. Aliás, hoje ninguém mais passeia!
Um professor me chamou para entrar no "cinema" e ver esse filme, uma criança me convidou para sentar ao seu lado. Eu sentei. Do meu lado haviam outras três, elas não pareciam interessadas no filme. Para minha surpresa elas queriam "ir conversar comigo" e disputavam entre sí quem iria primeiro (para quem não sabe, eu sou psicólogo). O que me intrigou é que a vida delas é muito pesada, então, segundo minha imaginação, elas, supostamente, deveriam querer mergulhar naquele filme. Viajar para aquele mundo protegido e ficar lá o máximo possível, naquela tela onde até o real era cheio de fantasia. Mas não! Elas queriam conversar comigo. Pasmei! Por conta desse pedido, pensei que a fantasia não preenche a carência de ninguém, apenas ilude, elas estavam dizendo que queriam contato humano verdadeiro, e não um encanto. Entendi também que amar é isso, desalojar-se desse lugar feito de espera, de ideais e imagens, é viver a dor de não ser para sempre o príncipe ou a princesa.
Pensei que estava sendo bem mais difícil eu querer encarar a realidade do que eles próprios; por cinquenta minutos senti vontade de ver o filme, esquecer daquele mundo imperfeito ao redor, me esconder e ser criança, e consegui ser por algum tempo. Depois fui chamado por eles da terra do nunca e foi muito bom voltar. Trabalhar numa vila com crianças mal cuidadas me faz querer poder dar todo meu carinho, esquecer um pouco da técnica e da neutralidade. É uma retroalimentação. Lá eu tenho a oportunidade de poder resgatar a criança em mim também, que, como eles teve a alma machucada. Uma criança com muito medo de ser rejeitada ou amada. Ao ser um pouco pai, um pouco amigo e depois terapeuta, alguma capacidade adormecida é despertada em mim.
Confirmei que ninguém precisa ser de vila para entender o sentimento de abandono, descuido ou agressão por parte de pais. Que criança não sentiu (em diferentes medidas, é claro!) desamparo e fragilidade como essas? A diferença é que para essas, há falta ou excesso de quase tudo. Elas aprendem cedo demais que "feliz para sempre" é uma ilusão. Por isso não queriam ver o filme. Elas entendem precocemente que felicidade é agora ou talvez nunca, é algo que urge sem momento certo; depende da sorte e é sempre por pouco. Um saber que poucos "adultos" realmente adquirem.
Estou acreditando que qualquer gesto sincero de carinho nesse mundo é um tesouro. Pensava que o mundo era frio e distante. Tinha até hoje acreditado nisso, então eu preferí me encolher, ser mesquinho e egoísta também. Já era hora de descobrir que fiquei com mais dívidas com o mundo do que ele comigo.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Mais uma da Maria
"O homem fica muito mais desamparado quando percebe que nem mesmo a linguagem tem o poder de transpor o abismo que o separa da natureza e que a tarefa solitária do poeta, por sua conta e risco, é dar nome ao Real: [Sem poesia, nada de realidade], escreveu Schlegel".
Maria Rita Kehl
Acho de uma libertação e alívio entender isso! Todos somos poetas tentando dar nomes ao Real. Uns mais, outros menos. Uma tarefa cheia de dúvidas e complexa. O Real é sempre um risco. Entretanto, mesmo sabendo dessa impossibilidade da linguagem, devemos continuar tentando, se aproximando, cercando esse peixe de escamas escorregadias chamado vida.
Maria Rita Kehl
Acho de uma libertação e alívio entender isso! Todos somos poetas tentando dar nomes ao Real. Uns mais, outros menos. Uma tarefa cheia de dúvidas e complexa. O Real é sempre um risco. Entretanto, mesmo sabendo dessa impossibilidade da linguagem, devemos continuar tentando, se aproximando, cercando esse peixe de escamas escorregadias chamado vida.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Na companhia de sexta...
Sexta feira,
refresco à sombra,
acalento no sol,
que o dia seja cheio de ficar bem,
dia de pinçar do suor as possibilidades,
dia de não esperar outros,
de caminhar por seis minutos como se nada fosse acontecer,
nadar entre as folhas caídas da quase primavera,
mudanças no balanço,
sem pressa,
acreditar na felicidade.
refresco à sombra,
acalento no sol,
que o dia seja cheio de ficar bem,
dia de pinçar do suor as possibilidades,
dia de não esperar outros,
de caminhar por seis minutos como se nada fosse acontecer,
nadar entre as folhas caídas da quase primavera,
mudanças no balanço,
sem pressa,
acreditar na felicidade.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Três pontos...
Choro,
Adeus nos olhos,
começo não é reinício,
conhecer é um jogo sem fim entre afastamento e reaproximação de si,
há enlaços correndo à beira da noite do coração,
o medo de se perder ou trancar é íntimo,
enfrentá-lo é ver os traços tortos expostos,
cair não é mortal.
Fé não é uma invenção,
tampouco uma palavra.
Que a última venha.
Adeus nos olhos,
começo não é reinício,
conhecer é um jogo sem fim entre afastamento e reaproximação de si,
há enlaços correndo à beira da noite do coração,
o medo de se perder ou trancar é íntimo,
enfrentá-lo é ver os traços tortos expostos,
cair não é mortal.
Fé não é uma invenção,
tampouco uma palavra.
Que a última venha.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Conselhos que devemos desconstruir I
"Na dúvida é melhor não tomar nenhuma atitude". Assim dizia um conselho que ouví de uma sábia amiga e levei para mim como verdade. Verdade até hoje, porque fiquei pensando que dúvidas sempre haverão, se levarmos esse conselho ao pé da letra nunca faremos nada. Sem esquecer dos muitos possíveis erros intrínsicos e a incerteza de cada ato ou decisão, ninguém sai de casa! Sempre existirá quarto para às dúvidas. Sermpre haverá um "viu!" "Eu te avisei!" no canto direito do ombro. É preciso bancá-lo.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
"O tempo e o cão"

Esse é o novo livro da Maria Rita Kehl sobre o qual eu me debrucei hoje à tarde. Trata da atualidade das depressões. Aqui vão algumas das minhas prediletas.
"A aparente eficácia dos tratamentos medicamentosos (para a depressão) soma-se a paixão pela segurança que caracteriza a sociedade contemporânea, para a qual a idéia de que a vida seja um percurso pontuado por riscos inevitáveis produz uma espécie de escândalo".
"depressivo é aquele que cai antes da queda" (ela pega essa frase emprestada de Mauro Mendes Dias).
"tudo parece possível, não porque o horizonte das possibilidades e da liberdade tenha se alargado, mas porque os critérios e os limites que davam sentido à vida foram destruidos".
"o homem de hoje não cultiva o que não possa ser abreviado" (Paul Valéry)
"em análise, é possível observar o momento em que o enlutado consegue abandonar aquele que o abandonou".
"A aparente eficácia dos tratamentos medicamentosos (para a depressão) soma-se a paixão pela segurança que caracteriza a sociedade contemporânea, para a qual a idéia de que a vida seja um percurso pontuado por riscos inevitáveis produz uma espécie de escândalo".
"depressivo é aquele que cai antes da queda" (ela pega essa frase emprestada de Mauro Mendes Dias).
"tudo parece possível, não porque o horizonte das possibilidades e da liberdade tenha se alargado, mas porque os critérios e os limites que davam sentido à vida foram destruidos".
"o homem de hoje não cultiva o que não possa ser abreviado" (Paul Valéry)
"em análise, é possível observar o momento em que o enlutado consegue abandonar aquele que o abandonou".
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Miles Davis e a insustentável leveza de uma manhã ordinária
Não era tarde demais, entrou na lancheria e pediu uma torrada, observava o vento e a chuva através da janela. Não sabia o que ouvir, seus dedos rodavam atrás de alguma coisa que pudesse fazer sentido. Encontrou Miles Davis; nunca até então conseguira ouvir uma música dele até o fim, não entendia como algo podia arranhar e acariciar simultâneamente. Dessa vez ele ouviu até as últimas notas alcançarem seu silêncio.
Da janela viu uma mulher, um mendigo e dois cachorros. O mendigo, ironicamente, lia o jornal, mancava e parecia estar com muito frio, estava sem roupas de lã. Era um dia de inverno. Havia um aquário no bar, iluminado com uma luz verde escura fraca. Haviam alevinos recém nascidos junto ao solo, era preciso se aproximar para enxergar, buscar foco.
Ninguém se olhava no bar quando entrou um homem já tirando seu casaco, ele trabalhava alí, entrou sem acenar ou dar bom dia às suas colegas, apenas dobrou seu casaco cuidadosamente e colocou guarda napos nas mesas. E se fosse seu último dia? Quem choraria?
Ouvindo Miles pensou que nem tudo precisa ser de vida ou morte, que a vaidade o levara até então a não sair do lugar. O bar estava vazio, a rua vazia, às mesas muitos fantasmas, sentiu-se bem com aquela falta toda que o preenchia, sentiu-se vulnerável, e sabia muito bem como essa sensação lhe era normal, mas não hoje. Pensava que não precisava de ninguém até então. Sua vida, como agora a via, seria uma fuga cansativa. Entendeu que ele não era nenhum homem. Se perdeu, voltou, mergulhou na ilusão de que esperaria até ser achado e pode submergir de sua vertigem crônica. Naquele momente havia acordado.
Da janela viu uma mulher, um mendigo e dois cachorros. O mendigo, ironicamente, lia o jornal, mancava e parecia estar com muito frio, estava sem roupas de lã. Era um dia de inverno. Havia um aquário no bar, iluminado com uma luz verde escura fraca. Haviam alevinos recém nascidos junto ao solo, era preciso se aproximar para enxergar, buscar foco.
Ninguém se olhava no bar quando entrou um homem já tirando seu casaco, ele trabalhava alí, entrou sem acenar ou dar bom dia às suas colegas, apenas dobrou seu casaco cuidadosamente e colocou guarda napos nas mesas. E se fosse seu último dia? Quem choraria?
Ouvindo Miles pensou que nem tudo precisa ser de vida ou morte, que a vaidade o levara até então a não sair do lugar. O bar estava vazio, a rua vazia, às mesas muitos fantasmas, sentiu-se bem com aquela falta toda que o preenchia, sentiu-se vulnerável, e sabia muito bem como essa sensação lhe era normal, mas não hoje. Pensava que não precisava de ninguém até então. Sua vida, como agora a via, seria uma fuga cansativa. Entendeu que ele não era nenhum homem. Se perdeu, voltou, mergulhou na ilusão de que esperaria até ser achado e pode submergir de sua vertigem crônica. Naquele momente havia acordado.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Homenagem ao mestre Carlos
Citarei outro mestre e "amigo". Carlos Skliar. Tive um seminário sobre Derrida com ele, além de ter participado da minha banca de defesa na proposta de mestrado. Recomendo fortemente seu livro, "pedagogia (improvável) da diferença. E se o outro não estivesse aí".
"E digo: diante de um aparente novo nome, a perplexidade. Não o costume, não a docilidade.
Diante de uma aparente nova mudança, a desconfiança. Não a metástase e sim, em todo caso, a metamorfose.
Diante de uma aparente nova promessa, o desassossego. Não a total compreensão, não sua burocracia.
Diante de um movimento aparente, outra vez a perplexidade. Não o hábito incorpóreo. Não sua ordenação".
"E digo: diante de um aparente novo nome, a perplexidade. Não o costume, não a docilidade.
Diante de uma aparente nova mudança, a desconfiança. Não a metástase e sim, em todo caso, a metamorfose.
Diante de uma aparente nova promessa, o desassossego. Não a total compreensão, não sua burocracia.
Diante de um movimento aparente, outra vez a perplexidade. Não o hábito incorpóreo. Não sua ordenação".
terça-feira, 1 de setembro de 2009
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