Sabe essa coisa do Renato Russo falar que "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"? Sempre me incomodou! Achava bonitinho, romântico, talvez até poético, porém distante demais da realidade. Quando algo foge demais da "vida como ela é", perde seu efeito de tocar, o que podia ser belo vira algo que cheira a um desespero, às vezes, agressivo.
Enfim, até hoje eu ficava dividido, na dúvida sobre a verdade e o uso dessa sentença "russiana".
À primeira vista, não gosto quando alguém chega querendo me avisar sobre o que eu preciso. Dos meus deveres só eu gostaria de saber. Precisar é quase sempre doloroso. Por outro lado esperamos muito que os outros saibam do que precisamos: como é bom quando o outro sabe né? Quão confortável! Ter que dizer "eu preciso" pode ser de uma grande dor. Mas depois de dito pode ser algo completamente revolucionário. Me dei conta disso agora que estou só. Porque será? Precisar está sempre circulando entre a prisão, a esperança e a liberdade. Certamente precisamos amar, claro que sim, mas não venha me dizer como eu preciso amar. Amar nunca será preciso, senão ele perde seu valor, esvaece e murcha.
Não é viável viver acorrentado à lembrança diária de que poderemos partir amanhã para então conseguir amar de fato.
Eu queria aprender a amar, apesar de amanhã. Sem colocar a morte no jogo. Morte, a única força que pode interromper a vinda desse tal dia de amanhã. Diante da morte tudo fica mais enfeitado, belo, arredondado, todos querem fazer as pazes e reconciliar. Diante da morte podemos voar, amar ou odiar quase que incondicionalmente. Mas diante da velhice, do cansaço e da mentira, das idiosincrasias, incongruências, da preguiça, do egoísmo, dos corações divididos, dos terremotos de chances e desentendimentos que o amanhã traz, é diferente. Aí então o amor se prova um desafio, um balanço delicado entre a corda, o trapezista e o tempo.
Amanhã sempre chega e traz o intempestivo teste do martelo sobre os nossos conceitos.
Vamos caindo e reconstruindo sobre (e com) o que restou deles. Mudamos.
Mas será que precisamos da morte para entender o que é amar? Acho, por enquanto, que não.
Eu sugiro amar como se não houvesse para sempre. Parece mais singelo, menos suicida e quase humano.
E chega de teorias precisas.