quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Walt Disney X Wila Pinto


Quarta feira, limbo da semana, meio caminho da vida. Acordo 7 hs e 30 min. Meu destino é um centro de atendimento para crianças no meio da vila Pinto. Sinto preguiça, eu sei por onde devo passar até chegar lá. É lixo, ruelas sem nome, crianças sem pais, passos entre o esgoto e o esquecimento. Chego no horário, mas elas iriam assistir à um filme da Walt Disney chamado "encantada". O filme inicia como desenho animado e trata de uma princesa que está prestes a se casar, quando uma bruxa a joga numa cachoeira com um fundo abismal, um lugar, segundo as palavras da bruxa, onde não existe "feliz para sempre". Ela é lançada à realidade. O que era uma princesa desenhada vira uma mulher de carne e osso (claro que a beleza se mantém). Ela sai de um bueiro e descobre um lugar barulhento, lotado, confuso, onde as pessoas não sorriem umas para as outras ou ficam cantando enquanto "passeiam" na rua. Aliás, hoje ninguém mais passeia!

Um professor me chamou para entrar no "cinema" e ver esse filme, uma criança me convidou para sentar ao seu lado. Eu sentei. Do meu lado haviam outras três, elas não pareciam interessadas no filme. Para minha surpresa elas queriam "ir conversar comigo" e disputavam entre sí quem iria primeiro (para quem não sabe, eu sou psicólogo). O que me intrigou é que a vida delas é muito pesada, então, segundo minha imaginação, elas, supostamente, deveriam querer mergulhar naquele filme. Viajar para aquele mundo protegido e ficar lá o máximo possível, naquela tela onde até o real era cheio de fantasia. Mas não! Elas queriam conversar comigo. Pasmei! Por conta desse pedido, pensei que a fantasia não preenche a carência de ninguém, apenas ilude, elas estavam dizendo que queriam contato humano verdadeiro, e não um encanto. Entendi também que amar é isso, desalojar-se desse lugar feito de espera, de ideais e imagens, é viver a dor de não ser para sempre o príncipe ou a princesa.

Pensei que estava sendo bem mais difícil eu querer encarar a realidade do que eles próprios; por cinquenta minutos senti vontade de ver o filme, esquecer daquele mundo imperfeito ao redor, me esconder e ser criança, e consegui ser por algum tempo. Depois fui chamado por eles da terra do nunca e foi muito bom voltar. Trabalhar numa vila com crianças mal cuidadas me faz querer poder dar todo meu carinho, esquecer um pouco da técnica e da neutralidade. É uma retroalimentação. Lá eu tenho a oportunidade de poder resgatar a criança em mim também, que, como eles teve a alma machucada. Uma criança com muito medo de ser rejeitada ou amada. Ao ser um pouco pai, um pouco amigo e depois terapeuta, alguma capacidade adormecida é despertada em mim.

Confirmei que ninguém precisa ser de vila para entender o sentimento de abandono, descuido ou agressão por parte de pais. Que criança não sentiu (em diferentes medidas, é claro!) desamparo e fragilidade como essas? A diferença é que para essas, há falta ou excesso de quase tudo. Elas aprendem cedo demais que "feliz para sempre" é uma ilusão. Por isso não queriam ver o filme. Elas entendem precocemente que felicidade é agora ou talvez nunca, é algo que urge sem momento certo; depende da sorte e é sempre por pouco. Um saber que poucos "adultos" realmente adquirem.

Estou acreditando que qualquer gesto sincero de carinho nesse mundo é um tesouro. Pensava que o mundo era frio e distante. Tinha até hoje acreditado nisso, então eu preferí me encolher, ser mesquinho e egoísta também. Já era hora de descobrir que fiquei com mais dívidas com o mundo do que ele comigo.

10 comentários:

Luciane disse...

nossa...me emocionei muito muito.
A ultima frase é que é um tesouro. Que coisa mais do coração isso tudo que te aconteceu e o jeito que tu descreveu...lindo, lindo!
Parabens!

marjoriebier disse...

Teu texto me fez lembrar de Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".
Parabéns, belas palavras!

nadia lopes disse...

Meu amigo bonito, que bom te ler no fim dessa semana, que m saber que aquelas crianças te tem ás vezes, que bom mesmo!
parabens pelas palavras e pelo trabalho e grata por me fazer pensar!beijo grande

Francinele disse...

Marcelo. Foi um baita solavanco na sua semana, héin? Um chamado: "Marcelo, abre a porta do seu coração que eu quero entrar. Mas eu quero entrar para ME proteger e não para TE ferir". :) Remeteu-me a uma cantiga da minha infância cujo autor eu desconheço:
"Se gente grande soubesse
O que consegue a voz mansa
Como ela cai feito prece e vira flor
Num coração de criança
Ó gente grande que tira o meu brinquedo da mão
me faz chorar
tira do músico a lira, e faz de novo a canção
De tanto 'não' que eu escuto
O não eu vivo a dizer
Eu não sou cego nem mudo
Eu não parei de viver
A gente só repete tal e tal
tudo o que vive a dizer
Ó gente grande eu queria
ser um dia
todo igualzinho a você
Se gente grande soubesse..."

marcelo disse...

Valeu irmã! Emocionar é muito bom!
Brigado Marjorie! Lembrar Fernando Pessoa é uma honra! Adorei a poesia dele!
Nádia! Saudade de ti! Bom feriadão!
Bem isso Fran! Um solavanco! Um sinal! Um divisor! Tu pegou exatamente o espírito da coisa; e que linda a cantiga!

adri antunes disse...

nossa, não resisti ao convite de Luciane e vim ver o que vc tinha escrito e simplesmente é maravilhoso! vivi uma experiência semelhante durante sábado, mas com professoras querendo descobrir formas de chegar mais perto dos alunos, tb foi incrível!
parabéns e bom feriado.
bju

Wania disse...

Lindo teu depoimento de VIDA!!!
Não tem como não se deixar envolver por estas crianças que clamam por afeto e atenção! O mundo delas não é rosa, mas a gente pode dar muitas pincelas coloridas para mudar esta realidade gris!
E é nisso que reside toda a diferença entre os que simplesmente fazem o seu trabalho e os que fazem seu trabalho porque gostam!!


Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Cora Coralina


Fazes a diferença...

Bj carinhoso pra ti
Saudades,
Wania

Anônimo disse...

É o Amor, portanto, operando a renovaçao pessoal e estimulando ao avanço na direçao do futuro melhor.

Marcos Satoru Kawanami disse...

o que mais interessa ao ser humano é o ser humano.

Anônimo disse...

estrada ruim
não existe para quem
quer mesmo ir

é isso ai meu filho
que lindo
em primeiro lugar os teus sentimentos
em segundo como conseguiu transmitir em palavras tão bem escritas todos os teus sentimentos
em terceiro pelas crianças da vila que te tem com elas
PARABÉNS
SARA