segunda-feira, 27 de julho de 2009

Instinto suicida


Três dos meus top 10 filmes envolvem personagens que livremente se jogam de prédios sem paraquedas. Vanilla Sky, Magnólia e O Hotel de Um Milhão de Dólares.

Ontem subi no terraço do prédio onde mora um amigo meu e lembrei da beleza de pular. O prédio fica na Duque de Caxias, na parte alta, era um dia lindo, sem uma nuvem, céu de baunilha. Fiquei flertando com a vertigem. Lembrando que tudo pode terminar em alguns segundos, evocando os detalhes que podem mudar qualquer direção. Fiquei me imaginando voando, numa queda silenciosa, enquanto meu amigo estava de costas para mim. Quando ele se virasse eu, simplesmente, não estaria mais alí.

Apesar do peso da vida, admito ter sentido um pouco de leveza, possibilidade nascida da imaginação que possibilitou meu voo. Suicídio é tabu, mas não acredito que alguém realmente vivo não tenha nunca pensado nisso. Suicídio é a loucura em seu maior exponente, solidão mais absurda, mistura de covardia, orgulho, coragem, raiva, tristeza. Em tempos em que morremos por quase nada, se matar até parece nobre. Será que em alguns casos não o é? Quando seria então? Pensar no suicídio é pensar além do limite da razão.

No filme Vanilla Sky, trata-se de um suicídio poético, para a vida. David se atira para poder despertar, viver uma vida real, não mais num sonho lúcido. Ele escolhe enfrentar seu pior medo, cair em si, desistir de olhar o mundo por cima. Nesse caso, eu gostaria de poder pular como ele. Fiquem aliviados, não estou fora de controle. Quero apenas matar o que já é morto em mim.
No Hotel de um milhão de dólares o personagem pula por amor.
Sempre achei lindo os românticos que se matavam por amor, mas acho que com o tempo e as cruéis decepções fiquei medroso, consequente e mais egoísta, passei então a achar estupidez. Mas a verdade é que admiro incrivelmente gente que morre para salvar vida(s), apesar de não me achar um desses. Numa situação limite talvez o fizesse. Mas o que sei, de fato, é que nunca houve um caso de amor sem morte com áspas. Sublime e excruciante morte, morte vívida, sem linha reta. Uma que reinaugura, reelege e reaquece. Mas até chegar lá e permanecer são muitos voos e outras tantas quedas.

Confesso que ontem pensei na beira da minha morte, alguns domingos são propícios para precipícios. Não pulei. Não iria trair um amigo.

12 comentários:

Luciane disse...

Esse fim de semana, quando eu estava na beira do canyon Fortaleza, eu fiquei pensando exatamente nisso, nesse instinto suicida adormecido, no desejo que a gente tem de poder voar, de saltar, de se atirar... não necessariamente morrer... Interessante tu perceber essa semelhança entre teus filmes preferidos. Te suicida de domingos tristes e te atira nos penhascos em todos os dias da semana: é o único jeito de se estar vivo de verdade.

marcelo disse...

É verdade! O único jeito de estar vivo é escolhendo estar vivo. Devemos perceber/ entender que temos essa possibilidade.

Kenia Cris disse...

Gostei demais da conta! (Perdoe a expressão, é q sou mineira mesmo!) - Eu não sei se pularia, acho que se eu caísse assim do último andar de um edifício ou da beira de um precipício, seria coisa de um vento maligno, porque eu tenho pânico de altura, então estar lá em cima, já teria sido por intervenção de alguém maior.

Sua postagem lembrou 3 suicídios por queda que marcaram a minha vida:

1. Em Amélie Poulain, a mãe de Amélie é assassinada por um corpo que caía enquanto elas saíam da igreja.

2. Björk, na música Hyper Ballad, descreve esse sentimento de estar no alto, pensar sobre a vida e ter vontade de cair, só pra mudar o rumo das coisas.

3. No livro versos satânicos, de Salman Rushdie, uma das personagens centrais narra o suicídio de uma mulher q se jogou do prédio onde morava, depois de arremesar os dois filhos de lá.

Nos países muçulmanos fundamentalistas, o suicídio em nome da causa é uma grande honra para as pessoas.

Belíssimo post. Voltarei sempre! obrigada pela visita e o follow.

Beijo carinhoso com ternura.

Kenia Cris disse...

PS.: O peixe da Amélie também vivia tentando o suicídio pulando de seu pequeno aquário. Até ser libertado.

Beijoca!

marcelo disse...

Legal kenia! havia esquecido dos peixes!! Peixes são grandes adeptos da doutrina suicida! Eles adoram pular dos seus aquários! Achei tri bom o teu blog também! Puxando a língua para o gauchês! Gostei das tuas lembranças de suicídio! Bjo!

Anônimo disse...

"A idéia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más." [ Friedrich Nietzsche ]

marcelo disse...

Realmente! Talvez seja uma consolação dos espíritos encarcerados.

fale com ela disse...

O precipício reto me atrai. Alguém já deve ter dito isso. Mas não é da literatura que eu tiro essa inspiração. Assim como dar um passo a mais (que seja) com o sinal fechado. Te confesso que essa vontadezinha esquisita está ali, ali, na comparação disso que você soube tão elucidar...
Mas eu não penso em suicídio. Só no precipício e no passo a mais
:)

Nádia Lopes disse...

ah, Marcelo...eu não acredito nessa leveza do vôo suicida e contrariando tua opinião nunca pensei em morrer como possibilidade...na real saquei agora, acredito no depois de qualquer dor, acredito na leveza posterior, a esperança é um motor de propulsão impressionante, também faz voar, só que pra cima!
beijo-saudade

Jéssica V. Amâncio disse...

"alguns domingos são propícios para precipícios." Ah, e como eu sei bem disso!

Me lembrei de Goethe, com Os Sofrimentos do Jovem Werther. Eu acho que suicídio é uma covardia tão esperançosa que chega a dar dó.. mas nossa alma se suicida diariamente, disso pode ter certeza. Já eu não daria ao mundo esse prazer de me ver pulando de algum prédio tão facilmente. rs

Gostei daqui.

marcelo disse...

Gostei muito do teu passo e do precípício Carmen! Eu também não penso em suicídio.
Nádia, às vezes não morrer deve ser e pode ser a única opção até passar a dor.
Jéssica, "o suicídio é uma covardia tão esperançosa que chega a dar dó"! Maravilhoso isso! Vou guardar para mim como presente! Seja sempre muito bem vinda aqui. Depois dessa então, só sinal verde para ti!
Abraços!

pensar disse...

Oi Marcelo,
Adorei o texto... e por "coincidencia" assisti Vanilla Sky no dia em q tu postou.
A vida e' eterno nascendo e morrendo, sendo assim se inauguram as possibilidades.
E ainda bem que a gente nao faz tudo q pensa!
Bjs